FORRÓ DE DOIS

OU JÁ HAVIA AMOR

Ali os dois eram só amorzinho. A moça do vestido amarelo, curto, com aquele decote deixando as costas de fora. O cabelo era só cacho, bem solto e cheio, preso com uma faixa vermelha, amarela e azul com estampas que lembravam lá longe de onde veio aquela pele morena tropicana. Ele ali bem solto, de camisa de abotoar estampada, uma bermuda leve quase que caindo e uma sandália. Era gingada de um lado para o outro, mais que dois passos pra lá e outros dois pra cá.

O abraço era eterno entre os dois. Era puro afago, de toque leves e nada breves. Ali na pista os dois estavam só. Sequer percebiam que ali ao lado era quase um bloco de carnaval. Ali eram só os dois. O forró era apertado, sem rodas e firulas. Era mão no ombro, mão na cintura. A cada passo ela fechava mais os olhos e sorria. Ele encostava mais no rosto dela e a cada vai e vem abria mais o sorriso. E era puro amor. Os dois pareciam viver um universo particular. Uma pista de dança só deles. E era. Naquele momento o mundo era só deles.

E a saia dela rodava de dar gosto. E ela nem reparava que o moço suava debaixo daquela camisa por puro afeto e nervosia. Era estômago embrulhando só de pensar na primeira palavra depois daquela dança. E ele desejava não precisar falar nada. Que a música durasse para sempre. Não por medo ou covardia. Por puro prazer de ficar ali. Tê-la nos braços eternamente. E ela só sorria. E os dois ignoravam o mundo.

E os dois dançavam juntos, como se fossem uma engrenagem só. Era pura harmonia, sinergia e matemática. E nem precisavam abrir os olhos. E como, por milagre, o espaço era todo deles. Ninguém ousou em pensamento ultrapassar aquele círculo que era dos dois. Era coração batendo com coração, era braço com braço. Pele com pele. Nuca arrepiada até o fim do pescoço.

Era o mundo dentro dos braços dos dois. E nos últimos acordes parecia que eles tinham pressa. Era pressa de viver aquele mundo fechado, dentro dos olhos de cada um. Aquele mundo de calor, cheiro e suor. Vivido onde ninguém entra. E a cada segundo era como se fosse contagem para o fim do mundo. Aquela vontade de viver a cada gota, a cada fio de vida por ir. E cada vez mais os sorrisos se abriam.

Mas a música acabou. Os olhos abriam e instantaneamente o sorriso congelou. A moça dos olhos amendoados, pura jabuticaba sorriu e encontrou os olhos verdes do moço. E encontrou mais amor que já havia. Foi testa com testa. E nenhuma palavra. Eles conversaram com os olhos. E ele trocou a cintura da moça pelas bochechas suadas. E a partir dali a novela conhecida: foi só beijo. Boca, língua, suor, saliva, eletrochoque e todo um universo de amor. A reza conhecida. O desconhecido acontecendo e levando a novidade para escanteio. E já havia amor.

E por mais algum tempo eles reinaram sozinhos ali na pista. E ninguém percebia que ali o amor acontecia. Que havia festa dentro do peito. Era carnaval no coração deles dois. E eles foram aterrissando aos poucos, voltando ao mundo de cá mas sem abandonar o que era só deles. E ali se fez uma nova história.

E de repente eles deixaram a pista de dança e se encostaram em um canto. E foi ali que a moça descobriu o universo do moço dos olhos verdes. E havia afeto a cada informação lançada: o que fazia aos domingos, a cor preferida, o sorvete desejado em dias de sol, o restaurante da quadra, o que cada um faz às terças à noite. Qual a cor mais linda do pôr do sol. E quando achei que aqueles dois tinham menos palavras e mais olhares, eis que havia amor em cada descoberta descoberta.

E assim o amor se fez. Bem ali à beira da escadinha do Bloco. A festa foi se acabando e com ela a vontade de que a lua se congelasse no céu até que cada um estivesse pronto para permitir que essa noite acabasse. E preparado para dizer até breve.

É que despedir do amor quebra a gente por dentro. E era os que os dois mais tinham medo. Que junto com o adeus fosse embora essa magia. E foi assim que a moça passou a viver nas histórias do moço dos olhos verdes. Foi assim que ele habitou os dias da moça. Não por medo da magia ir. Os dois eram pura fagulha. Eram brasa de ternura acontecendo todo o tempo.

E só me lembro de ver de relance a despedida. Foi um abraço longo e uma dança silenciosa. Foram dias em um curto espaço de minutos. E uma valsa que encheu meus olhos de tanta delicadeza. Era abraço doce, pele com pele, saliva com lábio, mão no cabelo. E estava ali as últimas palavras do primeiro dia. Ela falava com um meio sorriso e ele ouvia com toda atenção e devoção enquanto alisava as costas dela, como se pudesse escrever ali uma oração. Passeava pelas costas da moça, como se pudesse ler em braile naquela pele o que ela sentia ali dentro. Era um vai e vem de amor que ele queria deixar nas memórias dela.

E deu-se o último abraço. O último tocar de mãos. E ela partiu. Foi com seu sorriso na boca. Colocava as mãos do lábio como se pudesse sentir aquele último beijo feito batom vermelho marcando a boca inteira. Pegou as chaves e sumiu entre as arvores e o fim da rua. Ele ficou ali parado vendo a moça desaparecer como se não acreditasse naquilo tudo. Sorrindo a cada passo dela. Estático. Ele bem ensaiou dois passos, mas logo voltou a acompanhar a moça que partia. Era puro afeto até no ir.  E até ali já era amor. Já havia o amor. E sempre há quando vejo os dois.

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